2.5.18

A Amiga

Era o dia de número 73 na vida do pequeno gambá e o dia de número 72 em que ele não via ninguém. Um leve choro minguado fez com que ele se atentasse para um tronco de árvore cortado e interrompesse a segunda contagem.

Uma raposa cabisbaixa era vista se debruçando em raízes espalhadas de uma árvore que fora cortada.

G: Olá. – Disse com certa curiosidade.

R: Vá embora. Quero ficar sozinha. – Respondeu com uma voz triste.

G: Mas qual o motivo que está te deixando assim? – Perguntou tentando entender o que se passava com a pobre Raposa.

R: Não está vendo?! Retiraram daqui minha melhor amiga! Não deixaram nada, se não uma parte mínima dela. – Disse mostrando o que restou da Árvore.

G: Mas Dona Raposa, existem várias outras Árvores assim como essa que você está encostada... olhe em volta... basta você escolher outra. Olha aquela ali, parece ser bem bonita! – Disse apontando para uma grande pereira.

R: Você não entende... esta Árvore era minha amiga. Ela foi única para mim, ninguém consegue ocupar o local que ela deixou em meu coração. – Explicou, ainda chorando as lágrimas de tristeza.

G: Mas para mim elas são todas iguais. Algumas podem ser maiores, ter mais galhos, ter flores diferentes... mas são todas iguais.

R: Acontece que nós tivemos momentos especiais, coisas de só nos duas, que você não sabe. Por isso você acha que ela é uma qualquer.

O gambá sentou-se em uma raiz da Árvore e pediu.

G: Conte-me algo que aconteceu então!

Quando eu a conheci, eu era da sua idade, bem novinha. Estava com muita fome e não tinha nada o que comer. Quando eu encostei nela para poder descansar, ela me deu uma bela maçã de presente. A fome era tanta que devorei em questão de segundos. – Disse sentindo um carinho gostoso em seu coração.

Desde então eu tenho passado os dias com ela.

G: Com o que você me contou, ela te ajudou só uma vez.

Teve um dia que eu fui sair para procurar algo diferente para comer, quando eu estava quase no alto daquela pedra ali, disse apontando para uma pedra – vi alguém muito grande correndo para me pegar. Eu fiquei com muito medo e sai correndo para cima da Árvore. – Disse ao se lembrar do momento assustador que tivera.

G: Até que legal... mas ainda não é tão especial.

E se eu te dissesse que um dia eu estava passeando na redondeza quando um lagarto me mordeu o rabo e me assustou tanto que eu corri um bom tempo gritando assustada achando que era alguém grande? A Árvore ficou rindo comigo disso durante semanas! – Disse com um leve sorriso, que em pouco tempo foi escondido por mais lágrimas de tristezas.

G: Desta história eu gostei! – Disse rindo. – Quero mais!

Um dia eu cheguei para poder dormir e vi uns pássaros batendo nela a ponto de machucar o tronco. Eu fiquei tão brava que subi correndo e gritando para que eles saíssem e nunca mais voltassem. – Disse com um orgulho dentro de si. – Aquela noite eu passei quase toda acordada, protegi ela o máximo que consegui. – E, novamente, o leve sorriso dava lugar à tristeza.

G: E você já ficou muito tempo sem conseguir vê-la?

Todo dia eu vinha dormir perto dela, porque ela me protegia e eu protegia ela. Mas teve um dia que eu estava bem para lá do rio e começou a chover muito forte, não consegui voltar a tempo de dormir. Quando eu consegui voltar já era quase o fim do outro dia, – com um sorriso que relembrava um bom momento, continuou – ela ficou bem aliviada quando me viu. Disse “nunca mais faça isso de sumir sem avisar que não vai voltar”. Depois disso dormimos bem juntinhas. – A Raposa fez até um movimento de ombros como se estivesse sendo abraçada, mas pouco tempo depois deu lugar para a tristeza renascer.

G: Que legal! E qual a última coisa que você se lembra dela?

Hoje, antes de sair para passear ela me disse “Você é alguém muito especial, vou levar você para toda a minha vida!” – Disse desabando no choro de tristeza.

G: E por que você está triste? – Perguntou sem entender o motivo.

R: Porque nunca mais vou poder ver minha amiga! – Respondeu em meio ao seu choro.

G: Sabe... eu não me lembro de perder alguém especial, mas porque eu nunca tive alguém especial. Se um dia eu perder alguém especial eu acho que não vou ficar triste, mas vou ficar muito, muito, muito feliz!

R: Como assim? Você ficaria feliz de perder alguém especial? – Perguntou confusa.

G: Não de perder alguém especial, mas de ter conhecido alguém tão única como a sua Árvore. Eu acho que a tristeza de ter perdido não pode ser superior a alegria de ter conhecido.

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